segunda-feira, 6 de março de 2017

Homens e feminilidade no carnaval.

A grande magia do carnaval, pra mim, é e sempre será se fantasiar e tentar esquecer dos problemas que assolam o Brasil durante esses 4 dias em que se divertir parece ser a única regra. Mas problematizar é preciso, e parece que homens nunca dão um desconto pra nós.
Nesse carnaval comecei a refletir sobre os famosos "blocos das piranhas", ou a graça de "se vestir" de mulher no carnaval. Só de ter que usar o termo "se vestir de mulher" (vamo lá, básico do básico: o que é se vestir de mulher? Existe uma vestimenta correta para mulheres? Só sou mulher se minhas roupas estiverem de acordo?) a gente já começa a pensar em quão problemático esse ato é.

A feminilidade é uma série de comportamentos que são, em sua essência, pura submissão ritualizada.”
(Lierre Keith) 

Bem, comecemos falando sobre feminilidade. A feminilidade é uma das grandes armas do patriarcado, historicamente e extremamente opressiva, criada unicamente para mais uma vez designar mulheres à como elas devem ser, uma ferramente de controle feminino. De sua etimologia mesmo, é o conjunto de regrinhas e comportamentos que devem pertencer à fêmea. Salto alto, maquiagem, dietas, delicadeza, obediência, sutiã, cabelo comprido, depilação... essas coisas que a gente já conhece. Essas coisas que se não fizermos, somos julgadas. Porque isso não foi feito para ser questionado. Mulheres foram (e ainda são) submetidas à esse padrão por milhares de anos sem ao menos se perguntar "por que eu uso salto se me incomoda?", e mesmo hoje onde essas questões são frequentemente levantadas e a resposta conhecida, permanecemos moldadas ao papel d"o que é ser mulher".

"Enquanto a feminilidade estereotipada continua sendo o padrão controlador da beleza para mulheres, mulheres aparentando femininas (trans ou não) serão alvos aos olhos da violência misógina por causa de sua notada “beleza”. Em outras palavras, porque são conformativas com o feminino.
Além disso, comportamentos femininos socialmente definidos como hospitalidade, cuidado e um desejo socialmente estruturado pela atenção sexual masculina contribuem para a vulnerabilidade das mulheres à exploração. Quando a performance social de uma mulher (trans ou não) é coerente com a subordinação feminina à autoridade masculina, estupradores e outros abusadores poderão fazer alvo dessas mulheres como vítimas fáceis na suposição de que serão menos prováveis de resistir a avanços não desejados."
(Elizabeth Hungerford)

Então, a feminilidade machuca mulheres. Mulheres tem sua feminilidade reforçada mesmo quando não querem. Mulheres sofrem por serem socializadas de modo a se moldar aos padrões de feminilidade. Mulheres tem sua feminilidade NEGADA por serem lésbica. Mas, de repente, um homem decide que batom vermelho e short curto será a sua fantasia mega engraçada pro carnaval e todo mundo brinca e acha legal. Esse homem não está dizendo "roupas não tem sexo", quebrando padrões de "gênero", sendo revolucionário. Esse homem tá rindo, agindo de acordo com o que ele mesmo classifica ser piranha com uma maquiagem escrotamente passada na cara (como se ser mulher fosse algo ridículo). Por que pra eles isso é engraçado - reforçar (porque ao instituírem que vestido faz parte de sua "fantasia de mulher", por exemplo, eles mesmos designam que esse item foi feito somente para mulheres ou somente mulheres devem usar esse item) e debochar da nossa opressão?

É mais fácil perceber o deboche quando você nota que o personagem de "vadia" que homens incorporam quando se "fantasiam de mulher" só é realmente engraçado quando ligado à essa fantasia já que geralmente as atitudes que eles tomam fariam qualquer mulher ser abusada, assediada ou estuprada em qualquer dia normal, quanto mais no carnaval.

Um homem sair e brincar de ser "mulher" sendo "feminino" é opressor, é errado, é ignorar todo o histórico que mulheres foram assediadas e silenciadas. Porque esses símbolos, como as roupas e inúmeros outros signos foram feitos justamente para dividir a Terra na hierarquia de gêneros, a mulher como submissa ao homem e sua vontades, e como usar a dialética dessa quebra do fantasiado se crescem nos fantasiando o tempo todo? Não dá. Não há revolução, não há quebra de padrão, só há os desejos designados pelo patriarcado mesmo.

Resultado de imagem para patriarcado tumblrVocê pode achar que essa é uma problematização desnecessária, como eu vi muitos comentários nos materiais que procurei sobre o assunto "não perco tempo pensando muito", pois bem, se me permitem humildemente perguntar, vocês realmente acreditam em uma vitória feminista? Estão traçando planos para alcançá-la? Falo de tática de guerra mesmo. E lembrando que vitória feminista = revolução. Por que se sim, como acham que vai acontecer? Em um dia, o patriarcado vai cair e mulheres assumirão o poder? Gente, nem em filme de Pixar. Somente disseminando ideias, promovendo debates e discussões e evoluindo nas problematizações é que conseguirem um nível de conscientização que poderá nos levar a revolução "corporal" e vitória.
Se algo é claramente misógino, não é relativizando e fingindo que elas não fazem diferença na nossa vida que elas vão deixar de fazer. O patriarcado é um sistema antigo, complexo e muito bem construído para não ser derrubado. Ou seja, é necessária que cada peça seja tirada cuidadosamente e de uma vez só, nada "não vale a pena ser problematizado". Quanto mais ignorarmos uma questão porque "tem coisa mais importante para se preocupar", mais seremos vítimas desde estupro e feminicídio até misoginia disfarçada de festa que a gente se recusa a lutar contra.
NÃO SE DEIXEM CANSAR!






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