segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Dixavando a apropriação cultural.

Acho que a internet inteira já entendeu que esse é um assunto a ser discutido. E todo mundo já sabe porque ele deve ser discutido. Estamos mais divididos que o mundo na Guerra Fria, mas o que eu realmente tenho reparado é que as pessoas ainda não entenderam bem o que é apropriação cultural. O que realmente significa.
E não tem nada de errado nisso, eu demorei 3 anos pra entender, juro pela Deusa. E agora a minha obrigação é compartilhar isso com vocês. Claro, com o "auxílio" de algumas blogueiras negras, acho que é o mínimo que eu posso fazer como branca yakult.

O termo “apropriação” já tem conotação negativa por si só. Dialoga com “roubo” e “invasão”.
Existem diversos termos e conceitos usados para falar do assunto de um modo positivo: “empréstimo cultural”, “assimilação cultural”, “aculturação”, “sincretismo”, etc.
Todos esses termos existem para falar das mudanças que acontecem em uma sociedade diante de sua fusão com elementos culturais externos. São conceitos para se pensar esses processos de globalização, de cruzamento de culturas e até mesmo de dominação de uma cultura por outra quanto ao lugar que a cultura dominada ganha na sociedade dominadora por meio da assimilação de costumes.


As sociedades modernas, essas onde povos de origens diferentes convivem, são formadas por uma cultura maioritária (aquela que dita as regras gerais — a língua, o padrão socialmente aceito de vestir, de comer, de falar, de se relacionar etc) e por culturas minoritárias (aquelas que tem que se submeter às práticas da cultura maioritária pra viver na paz). Não tem a ver com número de membros pertencentes, mas sim com qual dessas culturas é mais valorizada e bem vista no meio em que vivemos.
Entre essas culturas que convivem em um estado não segregado, existem trocas e assimilações porque seria impossível não o ser.
Mas uma coisa é a troca, o intercâmbio de culturas, o que é muito positivo. Outra coisa é a apropriação. No nosso país, as culturas foram hierarquizadas, sendo a negra colocada como inferior, exótica. Dentro desse contexto é possível falar em troca? A troca só é possível quando não existem hierarquias. Esse discurso de que a cultura é humana só é válida quando querem apropriá-la. No momento de considerar a humanidade daqueles que produzem essa cultura, a história é bem diferente. No momento de perceber a necessidade histórica de ser representado e ter posse de sua história, é ignorado. E esse é ponto nevrálgico da nossa crítica em relação à apropriação cultural.
O que é alvo de críticas quando falamos de apropriação cultural é justamente a ignorância e desconhecimento ao tratar uma cultura diferente e a colocação de seus ícones como elementos e produtos postos à venda de um modo que perpetue as relações desiguais de poder entre a cultura dominada e a cultura dominante.

Mulheres negras não passaram a ser tratadas com dignidade, por exemplo, porque o samba ganhou o status de símbolo nacional. E é extremamente importante apontar isso: falar sobre apropriação cultural significa apontar uma questão que envolve um apagamento de quem sempre foi inferiorizado e vê sua cultura ganhando proporções maiores, mas com outro protagonista.

O sistema global hoje só existe e se sustenta porque fazemos parte de um mundo em que exclusão, segregação, racismo e elitismo são características mantidas e propagadas. Não se pode ver a apropriação de culturas marginalizadas com bons olhos, porque quem marginaliza é o mesmo que se apropria, é algo muito mais amplo que mera globalização, é um processo para manutenção das mazelas.

Resultado de imagem para não há capitalismo sem racismo

Ao mesmo tempo em que se impõe o padrão de beleza branca-de-cabelos-lisos e se propaga a ideia de que o uso de turbante por negras é coisa de “macumbeira”, o símbolo vira tendência da noite para o dia. Mas tendência para quem? As capas de revistas com mulheres usando turbantes mostram a mesma musa idealizada de sempre; visualmente, já se exclui a protagonista. Isso não é globalização, é um processo onde agora a moda é negra, mas o negro não está na moda, porque ser negro continua sendo ruim. Agora, ele não “pode” mais ser o agente principal da sua própria cultura.

A cultura é a marca de um povo, não vivemos sem cultura, e determinados povos mantém a sua mesmo que ela tenha sido intensamente perseguida, por isso a necessidade de reafirmar o protagonismo ganha peso. Sobre ser abrangente, e consequentemente de todos, as religiões de matrizes africanas existem há séculos e ainda são vistas de forma pejorativa, porém vem sendo crescente a ideia de que é “cult” ir na umbanda. Até anos atrás era coisa de “macumbeiros” (e continua sendo se você é negro), então quando isso virou hábito e tornou-se de todos?

Basicamente toda criação cultural é boa pro capital porque ele pode ter a chance de lucrar em cima, simples. MAS ele só vai lucrar de fato com isso de um modo pleno se convencer a parte da sociedade que consome que aquilo é dez, ao mesmo tempo que consegue manter uma outra parte na subalternidade — porque né, sem desigualdade não existe capitalismo.

Em suma, o sistema capitalista é o grande culpado. Ele e seus braços. É ele que vende o negro de dread como drogado sujo e o branco de dread como o alternativo amigo da natureza. Ele que divulga o trabalho da pichadora de porcelana como inovador, mas continua colaborando com o discurso que criminaliza os que inspiraram a idéia. Por que resolvem colocar uma mulher loira padrão europeu usando turbante em uma capa de revista, comercial ou propaganda, mas jamais usaria uma mulher negra ou uma mulher de origem árabe de turbante para a mesma peça? Fazendo isso, se colabora pra que certos elementos só sejam bem vistos e valorizados se antes passarem por uma “limpeza étnica” e está sim colaborando também para que os que não passaram por essa “limpeza” continuem sofrendo preconceito por aí, se mantendo a margem do sistema.

Então, estão insistindo em colocar uma questão sistêmica como problema individual e em pôr as coisas na linha do “quem pode” e do “quem não pode”.
A permissão a sociedade já deu.
Capitalizados e com seu significado cultural original alterado ou esquecido os elementos já estão.
A gente tem é que aprender a atacar quando vemos os discursos oficiais endossando isso, a reclamar quando a banalização disso permanece sendo vendida nos bailes da Vogue.

Ou seja, não dá pra seguir o que a indústria dita sem nenhum tipo de reflexão.

Por fim...

Como devo lidar então com outras culturas não dominantes?

Com respeito. O que inclui só usar se o grupo de permite isso, afinal, num mundo onde pessoas que pertencem às minorias não possuem voz, se você quer ser justo, tem que escutar o que elas têm a dizer sobre o assunto, ou seja, se dizemos não a apropriação, é não. Mesmo que haja negros que não se incomodam, ainda será mantido o processo que citei, por isso há muitos que não aceitam e pedem para que essas ações sejam repensadas.

Esse post é um compilado de um texto da historiadora Suzane Jardim com um texto da ativista feminista negra e fundadora do projeto Afronta Stephanie Ribeiro para a revista Capitolina e da grande mestre em filosofia política, feminista negra e escritora do Carta Capital, Blogueiras Negras e revista AzMina, Djamila Ribeiro

19 comentários:

  1. Caraca voce escreveu tudo que eu acho tbm, até enviei o link pra umas pessoinhas passarem a entender a palavra respeito! Tbm concordo com o fato de mesmo sendo minoria temos que dar direito deles se expressarem.

    maduogeda.blogspot.com

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  2. Concordo com você em relação a reflexão! Devemos, sempre, não se tratando somente da apropriação cultural pela indústria mas em relação a todas as apropriações refletir sobre. Pois, deveras, como você mesma falou, há sempre alguém querendo se apropriar disso!

    www.gotadechampagne.blogspot.com.br

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  3. Esse assunto está bem em alta mesmo, concordo com o que você escreveu e acho que todo mundo deveria saber sobre isso! Nesse mundo de hoje o que mais falta é o respeito :/
    Beijoos
    Yanna Karim

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  4. Assunto polêmico esse! Acho que há muito que ser discutido sobre, principalmente o fato da apropriação da indústria. Porém, não concordo com extremismos de movimentos que querem ditar regras de quem pode ou não usar, de quem pode ou não ir a uma festa. Isso só serve pra segregar, não unir. Acho que as pessoas perdem muito a linha do bom senso e do respeito.

    Beijos e sucesso

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  5. É um assunto delicado. Devemos sempre ter respeito por todos e nos unir no combate ao preconceito, seja de raça, orientação sexual, etc. Somos todos humanos, né? Devemos agir como os animais pensantes que somos e parar de difundir o preconceito!

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  6. Olá! Olha, como historiadora concordo perfeitamente que quando se trata do quesito cultura e respeito a gente sempre deve discutir mesmo, com civilidade (porque vi cada pataquada na internet que não dá pra levar em consideração, racismo por parte de brancos e negros que dava tristeza). Teve gente que até me excluiu e bloqueou nas redes sociais por conta desse assunto, ao invés de vir e discutir, trocar ideias e tal... Mas tenho que dizer que não acredito no discurso de apropriação cultural (que foi fundamentada na formação cultural americana), ainda mais aplicado no caso da formação cultural brasileira... A própria ideia do turbante só trouxe à tona como, no quesito história cultural, as pessoas tentam encaixar modelos e ideologias sem estudo de caso... Enfim, não vou me prolongar e transformar isso em textão porque não é o caso e acho que, com o tempo, as pessoas vão entender que na história as coisas não são tudo "certo e errado", "preto e branco", existem várias nuances de cinza no meio rsrsrs

    bjs

    Inajara

    www.vintageandgeek.com.br

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  7. Que ótima reflexão! Tudo que mais falta no nosso dia a dia é respeito, tenho tentado escrever bastante sobre isso. Além disso temos sido cada vez mais robotizados pelo sistema e não podemos permitir que isso aconteça.

    Parabéns pelo texto!


    Beijo! Nathy Bueno www.ocaosfeminino.com.br

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  8. Eu acho bacana abordar esses assuntos, justamente para ver se as pessoas estão atentas. Infelizmente algumas pessoas não entende o significado da palavra "respeito" e insistem em atacar o próximo com racismo e preconceito.
    Parabéns pelo texto reflexivo!

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  9. Olá!
    Acho muito interessante você apresentar esta reflexão juntamente com o seu ponto de vista no blog, hoje em dia é bem raro ver alguém que consiga colocar a sua opinião sem desrespeitar ao próximo, parabéns!

    http://www.loucurasaovento.com/

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Luisa, adorei que você abordou esse tema, pouco discutido na internet e a forma como abordou. Pra mim, o respeito é a base de tudo e devemos tratar todos com o mesmo respeito com o qual queremos ser tratados dentro do que julgamos ser nossa cultura. A apropriação cultural pela indústria, pelos governos e por quem detém maios poder monetário é um fato triste que é notado de uma forma cada vez mais crescente.
    Parabéns pelo post!

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  12. Olá, como vai?
    A cultura é sim a marca de um povo e quem melhor para falar de cultura do que nós brasileiros que somos o pais mais multicultural do mundo <3
    Eu achei bacana o texto, bem motivacional em certos aspectos e que toca fundo num mode de pensar das pessoas, acho que devemos discutir mais sobre o preconceito, falar sobre ele pode mudar nosso futuro pra melhor.
    Vou enviar o livro desse texto para algumas pessoas. Espero que ajude a mudar alguns pensamentos por ai.
    Beijo
    https://qadulta.blogspot.com.br/

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  13. O assunto tem que ser muito discutido ,moramos no pais multicultural onde as pessoas não sabem o verdadeiro significado da palavra respeito ,onde muitos não se aceitam ...Onde pra ser bonita tem que seguir padrão de beleza .Eu adorei seu post ,parabéns !

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  14. Esse é um assunto que tem me deixado extremamente frustrada porque vejo algumas imposições sendo feitas que só geram mais distanciamento entre povos e suas culturas mas por outro lado vejo muita gente sendo ofendida de verdade (sem querer chamar a atenção com textão no facebook ou videozinho no youtube). Então sempre fico quieta, e como estudante de jornalismo, procuro apenas analisar cada fato de cada lado, sem me impor, como tenho aprendido na faculdade, o que não é nada fácil. Gostei do teu texto, concordo com muita coisa dele. Além disso, foi a primeira vez que li um texto do tema onde o autor não tenha ofendido alguém por entrelinhas.
    Um beijo.

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  15. Hoje tudo leva para o lado do preconceito não é mesmo? Loiras,morenas,ruivas,brancas ou negros independente da raça ou sexo somos todos ser humanos livres! Gostei muito do seu jeito de pensar

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  16. Meu Deus, que texto!!!!! Eu penso muito nisso, na apropriação cultural e por esse motivo não me posiciono em determinadas situações. Mas, trato tudo e todos com respeito, melhor do que vestir uma camisa que ofenda alguém.

    Beijos

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  17. Só li verdades. É estressante a sociedade colocando padrão em tudo e isso leva para o preconceito. Imposições que não tem sentido. Gostei do post.
    Beijos!!
    www.dezalourenco.blogspot.com.br

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  18. Até concordo em alguns aspectos com diversos movimentos, mas passo a discordar quando partem pro extremismo, qualquer coisa que é extrema, acho ruim. Acho meio complicado ter essa "permissão" pra usar alguma coisa, principalmente aqui no Brasil que é um povo miscigenado e que sempre adere a cultura de outros lugares, como por exemplo o uso do jeans. De certa forma sempre vamos querer usar algo que nos agrade visualmente. O que de fato deveria acontecer é cada um respeitar os outros e não ficar julgando "é feio em você, mas é bonito em mim", pra mim, na real, tanto faz quem usa o que, desde que se sinta bem usando, pra mim tá tudo bem.

    beijos,
    deloucostodossomosumpouco.blogspot.com.br

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  19. To aplaudindo de pé!!! eu fico tão feliz quando alguém entende toda essa questão por tras da apropiação. Já cheguei num ponto que nem discuto mais, sinceramente cansei. Algumas pessoas não aceitam mesmo com todos os fatos e argumento apresentados a elas. amei demais esse post, espero ver mais como ele.

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