segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A realidade sobre maquiagem, gente.

Esse post. Ele está dando o que falar.



Assim que eu li, concordei tanto com ele que não esperava a quantidade de críticas que tive que ler depois. Então me senti obrigada a explicar minha concordância.

Vamos aos fatos: maquiagem ajuda na auto-estima. O famoso batonzão vermelho, aquele lápis, ou um mero blush pra dar uma corzinha nos tornam mais confiantes. A questão é: por que?
Bem... porque uma mulher maquiada é tudo o que o sistema capitalista & patriarcal que vivenciamos acha bonito! Ou você acredita que a Avon se importa mesmo com a sua auto-estima? É muito útil ao sistema que as mulheres estejam preocupadas com supostos quilos à mais ou quanto é importante estarem bonitas.
Assim, quando estamos dentro dos padrões, somos mais aceitas. O tratamento das pessoas a nossa volta muda, adquirimos mais respeito, mais olhares nos aprovam e a tendência natural e certeira pra isso é aumentar a confiança. Um estudo diz que mulheres que usam maquiagem são percebidas como mais competentes, femininas e simpáticas. É isso mesmo, a maquiagem define seu profissionalismo e habilidades. Mulheres sendo resumidas à aparência exterior alcançada com o lucro de uma indústria que só sobrevive enquanto a opressão estética permanecer, algo de novo sob o Sol?! Vocês já conhecem esse truque!.
Mas se por um lado isso é bom, quebrando essa barreira criada por Karol Conká e Jout Jout, vemos que não existe nada de empoderador ou revolucionário em fazer exatamente o que o sistema que nos oprime diz para fazermos.
Muito pelo contrário, a maquiagem, cumprindo a sua função natural, mascara enquanto cria mais inseguranças.

Porém, é claro, algumas mulheres exploraram essa arte, gostaram dela, e usam para destacar suas melhores características faciais. E essas mulheres devem compor... sei lá... 0,12% da população feminina? 
Para qualquer um inserido no capitalismo, ter um gosto estritamente pessoal é muito difícil, ou melhor, impossível. Estamos imersos em propagandas e marketing que nos influenciam o tempo todo no que diz respeito ao o que gostamos e o que temos que usar. Mas quando além disso, se é mulher, você está sob outra camada de opressão em que homens decidem o que mulheres fazem, usam ou gostam. E eles decidiram que maquiagem é bonito pra gente. Agora imagina quantas mulheres por aí que nunca ouviram o "ei, você pode fazer o que quiser! Sério mesmo" e usam maquiagem. Quer dizer, não se julga um grupo por um indivíduo, mas um indivíduo por um grupo, certo? Acho que isso justifica a generalização do post. Vira e mexe é necessário.
Isso me lembra que muitos dos comentários chamavam a mina de individualista. Bem... ela destinou o post ao 99,88% das mulheres oprimidas através da maquiagem, e você, a feminista bafônica, minoria, pensa "mas nem toda mulher que usa make é uma completa vítima do patriarcado", e isso não é ser individualista?! Ok.


Ótimos exemplos que agregam valor à essa discussão é o da socióloga e feminista Kjerstin Gruys e a escritora e obviamente também feminista Phoebe Baker Hyde, autoras, respectivamente, dos livros Mirror, Mirror off The Wall: How I Learned to Love My Body by Not Looking at It for a Year (Espelho, espelho fora da parede: como eu aprendi a amar meu corpo passando um ano sem olhar pra ele) e The Beaty Experiment: How I Skipped Lipstick, Ditched Fashion, Faced the World Without Concealer, and Learned to Love the Real Me (A experiência da beleza: como eu esqueci o batom, abandonei o fashion, enfrentei o mundo sem corretivo e aprendi a amar o real de mim). 

A primeira, KG, percebeu que algo estava indo contra seus princípios feministas e passou um ano sem se olhar no espelho. Ela planejou um casamento - e casou! - sem se olhar no espelho. E o resultado foi a cura de um transtorno alimentar. Eis o depoimento dela pro blog Adios Barbie:
Resultado de imagem para mirror, mirror off the wallUma grande mudança para mim foi identificar que há uma mentalidade bastante específica que eu entro quando me sinto pressionada para ser elegante e bela em comparação com a mentalidade que tenho sobre a beleza agora. Anteriormente, eu me compararia com outras mulheres, comprando roupas e maquiagem e ficando com o cabelo feito com a atitude de "eu tenho que ser uma das mulheres mais atraentes no ambiente". A opinião inconsciente operando era que a única maneira para ser seguro em um relacionamento era ser o melhor. Agora, quando percebo que esses pensamentos estão chegando, eu posso reconhecê-los mais facilmente como destrutivos para mim e para as mulheres à minha volta, e em vez disso adoto a mentalidade "o que eu posso fazer hoje para ser o melhor de mim mesma?". Sem ter que estar em competição com qualquer outra pessoa, se eu quiser experimentar uma maquiagem ou me vestir, é sobre mim, não sobre tentar ser melhor que outras pessoas. Alguém pode dizer "isso é ótimo, você está apenas mudando seu pensamento sobre isso mas não seus comportamentos" - e eu digo que não é verdade, porque quando eu estou pensando em ser o melhor meu melhor eu, em vez de tentar ser a garota mais bonita do lugar, eu faço coisas diferentes. Em vez de tentar performar o feminino, estou mais interessada em expressar minha personalidade. Ambos levam a algum investimento em aparência, mas essa nova mentalidade me dá uma direção na qual posso verdadeiramente me aceitar por quem sou, não comparada a um certo padrão.

Resultado de imagem para beauty experimentJá Hyde decidiu romper com toda a indústria da beleza e mostrou pra mulheres do mundo todo que mulheres se sentem sim obrigadas a usar maquiagem a fim de cumprir as normas sociais. Autumn, do blog The New Inquirity, disse que após ler o livro percebeu que usava um argumento pseudo-feminista sobre maquiagem - "faço para mim", mas notou que seu trabalho de beleza não tinha nada a ver com imaginação. Ao mesmo tempo, começou a ter vergonha em passar o corretivo nas partes do rosto que estava desconfortável. Mas não há respostas fáceis para a beleza e a feminilidade, diz ela, mas onde um dia eu encontrei frustração, hoje eu encontro libertação, porque respostas e soluções podem não ser fáceis mas procurá-los em vão não é o caminho que vou seguir depois de tudo.

Bem, em resumo, a maquiagem não foi feita pra dar poder, muito pelo contrário. Foi feita pra realçar nossas imperfeições, gerando mais insegurança e mais lucro. Um instrumento do patriarcado. Isso significa que a carteira de feminista das make lovers está confiscado? Não mesmo, feminismo é sobre defender a igualdade entre os sexos... mas também lutar contra as opressões. Porém, transformar algo que foi criado pra te oprimir em algo que te faz bem é uma revolução e tanto, a única questão é ser realista em admitir que isso não está acontecendo na maior parte do tempo e espaço. 

E eu acho que o único - porém perdoável - erro do post que iniciou o debate é ter a didática fraca, e não mostrar pra justamente a camada de mulheres que mais precisa, o que significa ~não ter gostos~ e ceder à opressão.

"Não me considero mais feminista que você, mas vou questionar sua posição. Do mesmo modo que você está livre para questionar a minha" 

Um comentário:

  1. Olá! Gostei muito do seu texto, porque realmente faz sentido o que está sendo explicado, mas também gostaria de dizer que há "casos" e "casos". Bom, realmente essas pessoas que acabam criando uma certa fixação por usar truques de maquiagem tem alguns problemas que deveriam ser discutidos com terapeuta, mas tenho que discordar na parte da progressiva cara... Até porque me encaixo nessa situação... Sou cacheada por natureza e sempre amei meus cachinhos, mas adotei a progressiva porque não tenho tempo suficiente para manter um cabelo bonito... Sem contar que, se for colocar na ponta do lápis, gastaria mais mantendo ele natural e tendo uma trabalheira sem fim... Não foi falta de amor pela minha imagem, foi abdicar de algo em prol de uma vida que não ficasse refém dos meus cabelos! E acho que tem muita gente que faz o mesmo...

    bjs

    Inajara

    www.vintageandgeek.com.br

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