segunda-feira, 9 de maio de 2016

Mãe de pet, pode isso?

Até pode. Se você for outro pet.
Calma! Você pode se considerar o que quiser do seu bichinho, total liberdade. Eu mesma chamo meu namorado de "bebê". Acho que é um impulso natural. Mas realmente existem pessoas que igualam o papel de ter um pet e de ser uma mãe.
Não é uma pauta do feminismo discutir se você pode chamar seu cachorro de filho. É uma pauta do feminismo discutir a romantização da maternidade. E um feminismo que não problematiza, não nos serve.
Vamos a reflexão e ao debate?

A questão é que ser mãe não é simplesmente amar e cuidar muito de algo.
Ser mãe tem um peso muito maior que isso.

Eu já fui dona de 8 gatos. Todos resgatados. Era uma loucura. Aspirar o sofá sempre, catar pulga de todo mundo, levar na veterinária (e gastar dinheiro, e dar remédio), trocar todos os potinhos, dar banho (e me machucar todinha), etc, etc. Mas então, ano passado, eu passei a quase nunca estar em casa. Se ficava 4h por dia era muito. Os gatos eram minha responsabilidade, mas eu não tinha tempo. E nem disposição. Doei todos. Todinhos. Chorei, mas eles foram.

Uma mãe... não resgata os filhos. Ela não escolhe como ele vai vir. Por vezes, ela nem escolhe.
Tudo começa quando somos criadas desde o berço a um dia ter um filho. É nosso objetivo de vida, nosso sonho de menina. É a nossa... função. Nos influenciam de todos os jeitos.
"Você tem filhos? Pretende ter filhos? Quando vai ter filhos?"
Quantas vezes já se sentiu oprimida por escolher não ter um gato? 

Após esse prólogo, falemos sobre a gravidez. Aquele momento em que seu corpo dói. Seus órgãos são espremidos enquanto seu bebê cresce. Você emagrece muito, ou engorda muito. Seus hormônios estão como nunca. Em que você provavelmente fica com varizes, prisão de ventre e pressão alta. E o peso?
Entretanto, a visão geral é que se esquece de tudo isso quando se sente um chute. Ou um simples movimento. Pras outras pessoas, é incrível botar a mão na sua barriga e sentir o neném. Mas você já sentiu ele há um bom, não é mesmo? E não foi desse jeito maravilhoso.
Adotar seu pet te deu sérias mudanças corporais? 


E então, você e seu barrigão passam a ser frequentemente julgados. Se você tiver cara ou for nova, reprimirão você. Ao mesmo que tempo que a partir dos 28 anos, já é velha demais pra isso. Se não for casada, é pecado. Se for, já estava na hora, né?
Te dizem que você vai perder seu companheiro, porque acabou com o seu corpo. Te dizem que você é egoísta se escolher não ter um filho.
Se você não tiver um companheiro estável... é impensável de tão doloroso o que dizem.
Você já foi chamada de "vagabunda" por, sozinha, criar um gato? 
ps.: esse período conta com fortes chances de demissão do trabalho.

Depois de 9 mágicos meses, é chegada a hora. Você chega no hospital e...
se for particular, te convencerão de todas as maneiras possíveis a fazer uma cesariana
se for público, te deixarão morrendo de dor até que tenha como fazer um parto normal.
mas dor, você vai sentir de qualquer jeito. A da dilatação, da expulsão do bebê, e da placenta.
Isso quando não ocorre algum imprevisto/complicação e são necessárias outras coisinhas.
Mas óh! Quando seu bebê sair e você pegar ele no colo, todo sujo do seu sangue, esquece disso tudo.
Ainda passarão alguns dias de dor, na recuperação do parto. Mas nossa, agora você tem um neném chorando e esfolando o bico do seu peito... é fantástico!
Quão foi fisicamente doloroso adotar seu cachorrinho? 

Agora, na minha humilde opinião, é que sua saúde mental começa a ser posta em prova. Achou que já tinha começado?
Sua preocupação é incabível. É necessária uma longo raciocínio antes de dar o que comer, o banho, parar ou não com o leite do peito.
É claro que gente pra se meter não faltam.
Você nunca está criando certo.
Quantas perguntas inconvenientes você já teve que ouvir por causa do seu bichinho?

Além disso, seu dia é baseado em fazer o neném parar de chorar, trocar fralda, alimentar, botar pra dormir, enfim, fazer de tudo pela saúde e bem-estar DO SEU FILHO. Isso inclui lembrar horário de remédios e ir pra médicos.

Aliás, seu dia não! Sua noite também. E não há ninguém que possa de fato dividir isso com você.
Quantas vezes você deixou de dormir pelo seu hamster?

O criar. É preciso dissertar sobre ele? Ensinar valores. Ouvir pirraças. Principalmente a adolescência. Essa coisa toda... desgasta.
E você não pode simplesmente pensar em desistir.
Não pôde na gravidez e não pode agora.
Porque pensar em desistir é negar a sua obrigação como mulher: ter um filho e adorar. E fazer de tudo pela concretização disso.
Quantas vezes seu pet já deitou no chão do mercado gritando que queria chocolate?


Bem, essa foi uma breve análise da maternidade. Te proponho a realmente responder as perguntas e ver que ser mãe carrega um peso social e psicológico que adotar um pet jamais te dará. Quando você afirma ser mãe do seu bichinho, você afirma sofrer toda essa opressão.
Não é uma crítica, é um convite a mudança. Vamos parar de silenciar as mamães!

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