sexta-feira, 27 de maio de 2016

A gringa e a neve - parte 2

Nessa altura do campeonato, eu e Anna já estávamos suficientemente chapadas pra ver o rosto da Priscila se transformar num lobo mal bizarro. Juro, antes dela pegar aquela sacola, era linda. Quando levantou o rosto oferecendo, era assustadora. Acho que minha reação instantânea foi olhar pra Anna, e ela estava como eu estou. Pensando agora é engraçado: a gente deu um pulinho de surpresa, com olhos arregalados, e tentando disfarçar porém muito incomodadas. Claro que a gente não tava disfarçando nada.
Como eu já tava preocupada com o horário mesmo, falei que tinha que ir e pronto. Literalmente salva pelo gongo. Obviamente a Anna ia me acompanhar. Já a Paula não parava de tentar me convencer a ficar mais. Sério, ela arranjou uns 390 argumentos - que pareciam válidos -. Mas caralho, a minha nóia com pó é grande demais! E a da Anna então... pior ainda! É papo de trauma.
Fizemos pé firme e foi a nossa vez de tentar convencer a Paula. Agora sim, os argumentos eram concretos. Mas na boa, ela não tava conseguindo nem se mexer.
A Paula é muito boneca, princesinha. Tá sempre com postura glaumorosa, sabe? E isso intensifica quando ela tá do nosso lado, já que eu e Anna somos preguiçosas e muito foda-se pra se preocupar com postura ou reputação. Então, se a Paula tava no chão toda desajeitada e descabelada, querido, pode ter certeza que ela tava very crazy.
Beleza, não tinha jeito. Ela é bem grandinha. Vamo, Anna!
Fomos.
Ela passou o primeiro terço do caminho falando da Paula. Tava preocupada com a Paula. A Paula ia acabar cheirando, ficando pior. E iam deixar ela lá. Ou ela ia chegar em casa assim e ia ser morta pela mãe. Ou ela ia se perder no meio do caminho de volta. As hipóteses eram muitos loucas. Mas é Rio de Janeiro, é coca, é Paula: nada daquilo era impossível. E eu sabia disso.
Por sorte, tenho um escudo anti-bad que só me fez rir de tudo que a Anna tava falando. Eu tava quase me mijando, até que me dei conta de que não tinha ideia de como voltar pra casa dali.
Minha frequência em Pedroso se resumia em ir numa pracinha com meus pais quando era menor. E essa pracinha nem era perto de onde a gente tava.
O jeito era ir perguntando, né.
Anna começou a segurar no meu braço forte aqui, eu acho.
Encontramos com um grupo de velhinhas que tavam fazendo sabe-se lá o que na areia da praia à noite. Juro que não lembro, só sei que elas estavam lá. Foram simpática e passaram umas coordenadas que eu passei uns 10min pedindo pra elas repetirem e no final não entendi porra nenhuma.
Eu ainda tava tentando processar o que as senhorinhas falaram quando a Anna sussurrou: eu não fui com a cara dessas velhas.
- que? por que? são velhinhas, cara!
- não fui. achei elas assustadoras, elas tavam de mal intenção
- achei que elas foram bem simpáticas
- simpáticas? tenho certeza que elas ensinaram o caminho errado pra gente
Se liga na onda da Anna!
Então, enquanto eu ia seguindo meus instintos e levando a gente, a Anna ia apertando meu braço dissertando dissertando sobre as vovós maléficas.
Beleza, encontrei a rua. Dava pra ver que o final dela era a estrada principal de Pedroso, então era só pegar a kombi, ou van, ou ônibus.
Acontece que a rua estava de fato meio bizarra. Era uma travessa com um único poste láááá no fundo, daqueles de luz amarela. E deserta. Assim que fizemos o reconhecimento visual de onde estávamos entrando, Anna tomou pra si como verdade absoluta que tinha um homem parado no final dela.
O pior foi que ela conseguiu me noiar.. e eu que não sou bad vibe, mas sou noiada pra caralho, me envolvi na onda dela e assim fomos.
Caralho, ser mulher e encontrar um homem estranho numa rua escura e deserta a noite? Preferia que fossem os cavalheiros do apocalipse esperando a gente ali. Que fosse o demo em pessoa pra levar a gente. Tinha que ser um homem? Um fucking XY?
Acho que nos despedimos, oramos, tomamos coragem de agredir o suposto homem...
E claro, a Anna tinha certeza que as velhas nos mandaram pra lá de propósito.
Fomos chegando perto, e quanto mais isso acontecia, mais o cagaço aumentava.
Engraçado que a rua era pequena mas me lembro de passar 3 anos chegando no final dela.
O HOMEM ERA UM POSTE.
A gente tava com medo demais de um poste.
Caralho, a nóia foi substituída por uma forte crise de riso que durou até entrarmos na kombi. Que inclusive, não levava nenhuma das duas pra onde queríamos. Mas levava até metade do caminho e foi a primeira que passou.
Fomos no banco da frente e o motorista não parava de olhar pra gente. Provavelmente porque além de estar rindo pra caralho, a gente tava passando perfume até no cu - porque a gente mora com os pais, né. Ele olhava com tanta cara de reprovação que eu já tava constrangida. Por sorte, a onda era maior.
Me despedi da Anna e saltei. Era bem no ponto final da van que eu precisava pegar: porra, que maravilha! Tudo que eu não precisava agora era andar. Já tinha começado a bater a lombrera.
Perguntei aos carinha se passava cartão e eles responderam que sim. Eu sentei, viajando em algum objeto inanimado do lugar, e fiquei esperando a van sair.
Num impulso de quem sempre pega ônibus, passei o cartão assim que entrei. E adivinha? O desgraçado não passou. Eu sem UM puto no bolso. Fudeu, pensei. Mas agora fudeu mesmo. Eu já tava no meu limite de horário com a mamãe, e nem tinha inventado uma desculpa que cobrisse qualquer pergunta que ela pudesse fazer ainda. Além disso, eu já tava no meu bairro mas ainda era longe demais da minha casa (a Zona Oeste é cheia de bairros-cidade sim). Sério, fudeu.
Porém, entretanto, o desespero foi embora rápido: comecei a implorar pros cara me dar carona. Sei lá o que que eu falei na hora, só sei que funcionou. Não paguei ainda cheguei em casa linda e bela.
Certamente levei esporro, mas caralho, valeu a pena. Dormi planejando minha ida ao Uruguai.

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