quarta-feira, 4 de maio de 2016

A gringa e a neve - parte 1

Mais um dia ao qual já estávamos considerando normal: greve, de novo. A diferença é que não tínhamos maconha, e nem planos. Eu e Paula sentadas na calçada, fumando um cigarro, pensando o que íamos fazer com todo aquele dia pela frente. Até que avisto uns peitos balançando, e logo sei que é Ana com boas notícias. Ela avisa que também vai estar de bobeira, e se junta com a gente a pensar. Marlboro vai, Marlboro vem... celular da Paula toca.
- Oi, alô, Priscila?... hã... porra, que maravilha!... tá... beleza então, tô indo... ér, tem umas amigas comigo mas... hehehe, até daqui a pouco então.
Paula desliga e explica o breve diálogo: Priscila é uma mina que ela pegou há tempos atrás, mina vivida, ratona, num joga pra perder. Tá sempre de namorado novo, e tudo segue o style dela. O da vez era um uruguaiano que trouxe uns agrados de sua terra. Porra, quando a Paula falou isso, eu e Anna abrimos um sorriso que faria cegos enxergarem. A gente chegou a gargalhar, eu acho. Era uma puta oportunidade...
Paula complementou alertando que ela ia dar em cima da gente, mas que não era pra render, porque Paula queria pegá-la de novo. Tudo bem, Paulinha. Terá alguém lá que eu to muito mais interessada: Mary-Jane URUGUAIANA.
A gente tinha que andar uns bons quilômetros até chegar no ônibus, que ficava no centro de Santa Maria. Era quase outro bairro. No caminho, decidimos que nem só de cigarro viverá a mulher. Paramos em uma farmácia e decidimos comprar o que mais tava na nossa moda jovial: um antialérgico que dava onda. Era 9 reais a cartela, e vinha o suficiente pra 3 pessoas terem uma onda digna de LSD. Éramos 3, e 9 é múltiplo de 3, ou seja: tava tudo dando certo.
Mas eu, como não deve ser surpresa, arreguei. Sou mesmo muito cagona e foda-se. Elas dividaram lá do jeito que deu. Mas eu sei que sobrou. Andamos esses quilômetros de boa, conversando. Mas confesso que na minha mente eu não parava de pensar que ia ter que cuidar de ambas, ou de pelo menos uma das duas. Faz parte, vida de canceriana é isso aí. (E eu tava com duas geminianas).
O ônibus tava lá, prontinho, só esperando a gente. Porra, até que enfim sombra! Passamos na roleta e sentamos aliviadas. Tinha a gente e mais duas almas que pareciam ser tão interessantes quanto ração humana.
Mas o trio não podia se separar, né? Paula botou a Anna no colo e lá fomos nós, tentar encontrar a Priscila. Só que que porra de caminho era aquele? O ônibus passava em tanto quebra-molas que eu já tava desconfiada estarmos na Lua. Pressenti merda e não deu outra: Paula, nossa amiga universalmente conhecida por suas bads, começou a passar mal. E repetia que foi aquela merda de remédio. A Anna já tava chapada porque ria sem parar, com seus peitos pesando 50kg cada um, no colo na Paula. Eu tava desesperada mas como de costume, não fiz porra nenhuma. Assim foi até o momento que Paula vomitou toda a lateral do ônibus e seguimos viagem contemplando aquela obra de arte moderna na nossa janela. Tudo bem, marijuana importada vai compensar.
Pisamos pra fora do ônibus, todas já recuperadas e pensando apenas em correr para os lindos braços verdes de nossa amiga. Sorrindo e andando rápido, pergunto a Paula:
- cê marcou aonde com a mina?
- aqui em Pedroso
- jura? mas onde
Silêncio.
Ah, tá, eu subestimei meu pressentimento. Pedroso é um bairro-cidade. Daqueles bairros que só são bairros porque são pacatos e não-desenvolvidos, mas tem o tamanho de uma cidade. E gente pra caralho! Eu pensei "fodeu", né? Mas não podia deixar nada me impedir de experimentar a belezinha gringa que nos esperava. Poucas vezes na vida me senti tão determinada, diga-se de passagem.
Respirei, pedi um cigarro pra dá aquela renovada nos pulmões, e segui andando. Passei o planos for ma girls: vamo andar a orla da praia. A orla era pelo pier, então de boas. Fomos andando tranquila mas eu tenho certeza que a chama da preocupação ainda tava acesa nelas, como tava em mim.
Não achamos nada.
Comecei a pensar que devia me dar por vencida e só sentar e ver o Sol se pôr na companhia daquelas mais de 3 mil substâncias prensadas e enroladas com um filtro. Aí a Paula, em um dado momento, me olha. E naquele olhar eu senti um pedido de "não me mate, por favor".
- que foi, Paula?
- ah, nada
- fala logo
- eu meio acho que tenho o número da Priscila, né? da pra gente ligar.
Por sorte a Paula sempre tinha crédito. Quer dizer, garantir a foda nossa de cada dia (ter sempre o telefone disponível pra ligar pros boy) não era bem "sorte", mas vamos usar essa palavra.
Só que o número era residencial, pela segunda vez eu penso "fodeu". E em seguida, que a minha cota de pensar isso já deu. A pouca experiência diz que essa é a hora de abandonar navio e se conformar. Mas nunca um boldo uruguaiano esteve em jogo. Seguimos a nau.
Tentamos e tentamos, e nada. Paramos no pier e ficamos conversando, fumando, rindo e claro: tentando. A tarde já tava terminando quando o celular da Paula toca no intervalo entre uma música e outra que tocava daquela caixinha de fósforo que eu chamava de celular. Ela abriu a boca de um jeito que só a Paula sabe fazer, deu um sorriso igualmente assim, e naquela hora eu tinha a certeza que a vida tava sorrindo pra gente de novo.
- que foi, caralho?!
- ela.. ela... vem, vamo!
Saiu andando na frente, dando passos enormes com aquelas pernas enormes e eu e Anna tivemos que dar um corridinha segurando os peitos pra alcançá-la. A Priscila tinha voltado em casa porque tinha esquecido alguma coisa, aí atendeu o telefone e explicou pra Paula onde estava.
Ela tava tão entocada que eu entendi porque a "volta na orla" não tinha dado certo.
Avistei a mina lá de longe e meu coração se acalmou.
Ressalve pro que Paula tinha dito: a mina valia a pena. Tinha o cabelo curtinho, atrás da orelha, e o corpo de uma... nossa, deusa. Não sei se o que ela tinha a nos oferecer interferiu no meu julgamento, mas era uma gata! E usava um visual tão casual e... olha.
Bem, claro que a Paula podia ficar despreocupada sobre perder ela pra gente: eu e Anna chegamos num crackuda style tão forte que definivamente não era atraente. Éramos o smeagol atrás do Anel. E nem conhecíamos a mina! Num rolou os dois beijinhos tipicamente cariocas, foi aceno, aperto de mão, sei lá o que, não lembro! Mas sei que logo perguntamos da esperada, né. "Eu vim aqui só pra te ver, saca?"
A mina deu um sorrisinho tão sexy que eu com certeza daria mole pra ela se tivesse com essas coisa na cabeça, mas não tava. Pós-sorrisinho atraente ela olhou pra trás e chamou um cara. Eu fiquei assustada porque geralmente olho tudo em volta, mania de noiada. E num tinha visto aquele indivíduo ali. Também pudera, tava igual uma coruja. Ele tinha uma aparência suspeita demais, todo estranho. Cogitei vários bagulho... as amigas da Paula são meio hard. Mas foda-se, né? Ele tinha o que eu queria.
Ele passou uma caixinha pra Priscila, que pegou, abriu e virou pra gente: era uma caixinha daquele antialérgico, mas dentro tinha o paraíso. A caixa tava repleta de becks perfeitamente feitos. Eram simétricos, sequinhos, perfeitos. Parecia um maço de cigarro aquela porra. Eu e Anna parecíamos crianças diante de um bolo de chocolate. Que namoral, eu queria me lambuzar.
A mina sorriu de novo e tirou um. A gente se sentou em roda, e eu arranjei logo um lugar pra encostar, né? Priscila acendeu e passou. A partir daí o bagulho fica doido, como diz Lohran. Sei lá quantas voltas aquilo deu, mas na minha concepção foram infinitas. Incontáveis vezes eu olhava pra ela, ela olhava pra mim, e saiam coraçõezinhos dignos de anime da minha cabeça.
Eu lembro que a gente entrou numa brisa incrível sobre novelas, algo assim. Também teve um velho, que uma hora a gente olhou e ele tava lá, perguntando o que tava acontecendo ali, na outra ele já não tava. Nunca vamos saber o propósito daquele velho de moletom cinza. Fica o mistério.
Sei que de repente eu reparo na roda e vejo que uruguaiano não tava ali. Achei meio desrespeitoso, mas fiquei feliz: sobra mais! Só que a boca aqui é grande demais né? Olhei pra ele e ele tava na posição que aparentemente era a normal dele. Igual uma coruja.
Falei: cara! cara! ei, cara! ei!
Até que ele olhou e parecia surpreso porque alguém tinha falado com ele. Aí eu perguntei: cê não vai fumar não?
E ele responde que não fuma, só aperta.
- Convive com gente que fuma a vida toda, tive que aprender a fazer. Mas num curto não.
Namoral, nesse momento minha admiração por Priscila nasceu. A mina era ratona mesmo! Esperta pra caralho.
Dei um aperto de mãos nela através do olhar, no que ela retribuiu. Nessa hora um flashback da Paula dizendo pra gente não render veio a minha mente e eu segui minha onda olhando pro mar.
Depois de incontáveis voltas, maryjane uruguaiana acaba. Eu já tinha começado a ficar noiada com bagulho de horário, né? Mas Anna já tava acostumada e me acalmava,
Paula tava tão acabada que eu me surpreendia quando ela falava palavras monossílabas.
Mas a Priscila... caralho, a mina parecia que tinha era bebido água e só. Inteira, tranquila. Eu pensei "que porra é essa", mas nem questionei nada. Ela começou a dar um papo semelhante aquele "então gente, tá tudo muito bom, tudo muito bem, mas realmente eu preferia..."
E me tira um saco da sua bolsinha hippie. O saco parecia um presente gigantesco, e a bolsa a sacola do papai noel. Mas só se fosse um presente pro menino Aécio Neves.
[CONTINUA]

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